segunda-feira, 14 de julho de 2014

Ruas

A nossa rua é tão linda,

Visto dela o céu é mais azul, a noite tem mais estrelas, a lua é muito mais cheia e reconheces até o cruzeiro do sul. Na nossa rua pode sentar no chão como se fossem mil tapetes. Pode rir e pode chorar, pode falar tudo que pensar e se alguém discordar tudo bem, a razão é de todos bem como é de ninguém; a única lei por aqui é o respeito e a paz entre os que estão.A nossa rua acolhe. Aceita qualquer um, não precisa de ingresso, não tem lugar marcado, todo espaço é de todos e todo mundo é amado. Se quiser um cigarro ou um gole de vinho senta mais perto tudo é aceito e tudo é certo. E se for pra dormir te aconchega num canto; é humilde a marquise e te abraça sem qualquer cerimônia, como se dissesse em voz rouca: “Vem cá criança, descansa um pouco da vida, sempre há esperança, sempre haverá o amor”.

Mas a tua não...

A tua rua é cinza e me deixou de lado. Marginalizou, me contou como estatística, me cuspiu, me julgou, me repudiou e dos meus iguais nada quis além de uns passos de distância “por uma questão de segurança”. A tua rua engana, tem luzes que piscam, tem placas, propagandas e avisos. Mas de que adianta? Tua rua é suja, tua rua dói, tua rua castiga, subjuga, corrói, bate, amedronta, cobra caro, não tem paz, não tem espaço pra nós. Nela ninguém pode ficar. Nela não se permanece, só se passa, olhando baixo, procurando um canto que acolha; pros meus não há escolha, nenhum lugar conforta por aqui. Sequer tua marquise torta que olhando de cima repete: “Aqui não podes ficar. Se puderes ir pra lá, porque aqui não podes ficar. Não faça eu me alterar, usar a força... Matar”.

A tua rua é cinza demais.
A tua rua é uma mentira.
A nossa rua, qualquer dia,
Num ímpeto de rebeldia
Roubará toda essa agonia
Que tua rua espalhou.


Então todo chão será tapete
Todo céu será pedra escarlate
Já até prevejo o sorriso da lua
Tomaremos de volta a rua
Que é nossa por direito.
Que é de todos.
Que é rua,

E só.

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